É impressionante a capacidade de buscar o “foco dos holofotes” nas relações internacionais por parte do presidente da Venezuela, Hugo Chavez. Sua forma de fazer Política é um tanto heterodoxa, para não dizer esdrúxula. Claro que pode ser explicada. É possível começar pela conduta inadequada de uma diplomata de carreira venezuelana, acreditada do Brasil como Cônsul-Geral, interferindo em assuntos domésticos brasileiros, quando deveria atuar dentro da sua competência diplomática, qual seja a de defender seus nacionais, venezuelanos, presentes no nosso País, seja qual for o motivo. Esta é a função prioritária de uma relação consular tradicional e reconhecida desde o “Tratado de Viena para as Relações Consulares”, o qual o Brasil e a Venezuela são signatários. Em face da sua origem militar, também é oportuno argumentar sua conduta inoportuna, provocativa e antagônica de declarar, publicamente, sua decisão de deslocar um contingente do Exército para uma determinada faixa da fronteira venezuelana com a Colômbia. Ele sabe muito bem que este ato militar significa um sinal de ameaça de agressão ao estado vizinho. E se o fez, ostensivamente, além de assumir um risco estratégico-militar, desejava que soubessem do seu interesse em “participar diretamente, mesmo não sendo convidado”, da crise político-estratégica, mesmo sem ser convidado. Um terceiro e último argumento se origina da recente crise do gás entre o Brasil e a Bolívia, tomando para si o papel de “guia” e de orientador das ações a serem empreendidas pela Bolívia na crise e desde a posse de seu atual presidente, Evo Morales. Poderia ficar registrando um conjunto de atitudes condizentes à “moldura política” optada pelo Chavez, tal como a postura nada educada, muito menos diplomática, na Assembléia-Geral da ONU por ocasião da abertura anual daquele organismo internacional ou ainda sua idéia “fraterna” de conceber um gasoduto que ligue a Venezuela até a Argentina, passando pelo Brasil e fornecendo gás para quem necessitar.
O que importa, para uma análise mais racional e conjuntural, é ser a Venezuela um lugar instrutivo para melhor compreendermos o mundo globalizado em que vivemos na atualidade, por ser, digamos assim, um país rico em petróleo e gás, e que insiste em criticar a política imperialista dos EUA. Uma primeira conclusão é que no século XXI o comércio triunfa sobre a política, haja vista Chaves manter os laços comerciais entre a Venezuela e os EUA, ao mesmo tempo chamando o Presidente Bush de “demônio”. Pegando este gancho de riqueza natural, torna-se claro que o petróleo e gás centralizam o poder, confirmando a tese da cientista política Margarita Maya, também venezuelana. Por receber um valor entre US$ 4 bilhões e US$ 6,5 bilhões em cada mês pela receita decorrente do comercio de petróleo e gás, um valor próximo a US$ 100 milhões por dia, Chavez delira conforme seu humor e sua vocação distorcida de liderança. Falando em liderança, outra conclusão é o crescente nacionalismo em decorrência do processo da globalização. O discurso de Chavez é apoiado na identidade nacional com bandeira da esquerda, mas com um viés falaciano de uma “república bolivariana” regional, anti-imperialista, pois o intenso fluxo financeiro global, aliado à crescente flexibilidade com segurança nas tecnologias da informação, limitam de fato o poder real dos políticos. Também se ressalta a consolidação de redes anti-americanas universais, em face dos vínculos criados por Chavez com outros países como a Bolívia, Equador, Nicarágua e Cuba e dos laços estabelecidos com o Irã, China, Rússia, estes últimos comercializando armamentos e costurando parcerias no campo econômico-militar com a Venezuela.
Outro aspecto conclusivo gira em torno do desafio à democracia, pela censura de canais de rádio e TV da oposição ao governo de Chavez e quando o poder judiciário fica a serviço do executivo, além da corrupção se tornar um meio de vida regular. E quando é mencionada a TV, também fica bem definido o triunfo da mídia sobre qualquer coisa, haja vista a situação crítica interna da Venezuela no abastecimento de gêneros para a grande maioria da população, em contraponto aos jogos de basquete e do verdadeiro fanatismo pelo beisebol. Acrescentam-se os fatos da longa espera para obtenção de visto de entrada para os EUA pela crescente demanda, dos vôos sempre lotados de e para os EUA e das prateleiras sendo continuamente reposta com produtos americanos. Mesmo existindo projeto de alteração de fuso horário (sic), Hugo Chavez no momento se encontra provavelmente confuso, incomodando em excesso seus vizinhos, quando não interfere nos interesses desses mesmos vizinhos. Com a palavra a diplomacia brasileira!
em 15 de maio de 2008
por Roberto Carvalho de Medeiros
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