Recentemente o Almirante Flores, grande estrategista naval, escreveu um artigo sobre os novos matizes da (in)segurança, que provoca, no mínimo, o desejo de reavaliá-lo à luz dos Estudos Estratégicos. A região que permeia uma parcela visível do Oriente Médio, particularmente Israel, Líbano, Síria, Jordânia, Iraque e a área em torno do Sinai (Egito), há anos provoca atritos entre si por causa da água doce. Israel já promoveu (e ainda promove) pesquisas no campo científico para obtenção e tratamento de água doce nas suas terras, muitas delas consideradas heterodoxas para a atualidade. A disputa de água já ocorre ao longo das principais bacias, tais como dos Rios Tigre, Eufrates e Jordão (fig. 01).

O aumento populacional, a poluição fluvial e lacustre e a exaustão de fontes já produzem tensões domésticas e internacionais, tanto sob o aspecto do consumo humano e industrial, bem como para a geração de energia e irrigação (fig. 02 e 02a).


O colapso do Mar Aral é um exemplo trágico decorrente do uso excessivo de seus rios na irrigação local. Aqui mesmo, na América do Sul, existem contenciosos entre a Bolívia e o Chile há cinqüenta anos em torno do Rio Lauca, as relações inamistosas entre Brasil e Argentina decorrentes das hidrelétricas Itaipu e Corpus, no Rio Paraná e, mais recentemente, entre Argentina e Uruguai no caso das “papeleiras” e das hidrelétricas do Rio Madeira (Brasil e Bolívia). Segue-se a questão em torno dos hidrocarbonetos, ainda fonte de energia de grande significado nas matrizes industriais e nos transportes de forma global. São extraídos de forma expressiva em poucos países, alguns instáveis politicamente, outros poucos com um regime político democrático mais seguro; ou seu transporte passa, obrigatoriamente, por regiões complexas (fig. 03).

É preocupante a ameaça ao fluxo de gás russo para a Europa, já praticada pela Ucrânia (fig. 03a); para alcançar o Mar Mediterrâneo, o Mar Negro ou o Oceano Índico, rumo ao Ocidente ou ao Japão e China, o petróleo deve passar pelo menos por um dos seguintes países: Rússia/Chechênia, Geórgia, Turquia, Irã, Azerbaijão, Afeganistão e Paquistão (fig. 03b).

Preocupa, também, a posição estratégica do Irã no Estreito de Ormuz e de Mianmá no Golfo de Bengala, particularmente no Estreito de Málaca, hoje prioridade um para a Marinha da China (fig. 04), conforme demonstrado no artigo “Desafio de Málaca e o Brasil”.

A pesca é outro fator de preocupação em crise político-estratégica internacional. Atualmente existem pendências de fronteiras marítimas entre Chile e Peru (fig. 05); a região marítima adjacente ao Canadá no Atlântico Norte (bancos piscosos) já foi cobiçada, gerando crise entre Canadá e a Espanha, na década de 80.

A própria destruição de florestas para, por exemplo, a indústria de extração de madeira e agropecuária, prejudica diretamente as fontes nutrientes das suas respectivas bacias hidrográficas. A pressão demográfica é outro fator que, na realidade, passa por todos os outros tópicos, em cujo estudo prospectivo indica uma escalada de desafios para sustentá-la sem que o progresso naturalmente necessário, envolvendo recursos naturais e ambientais, ameace frontalmente o futuro sadio da Humanidade. Destacam-se as fontes de crises decorrentes da desordem e da emigração descontrolada pelos povos atingidos pela falta de alimentação, de água e de terra e/ou pelo crescente desajuste social. Uma reação previsível será a aprovação de políticas reativas e desajustes culturais, agressões ambientais, desemprego, violência, discriminação e isolamento. Um bom exemplo é a recente ampliação do Espaço Schehgen, na União Européia, repelindo um conjunto de grupos étnicos que desejavam participar do desenvolvimento social e econômico europeu, tais como romenos e búlgaros (fig. 06).

O princípio da soberania implantada pelo Tratado de Westfalia, há cerca de 360 anos atrás, quando não era levada em consideração a notável interdependência global da natureza, deve ser repensado com maior rigor político e científico. A relação da antiga lógica de soberania construída pelo homem após a Guerra dos 30 Anos, com a doação Divina da natureza para a Humanidade, não se encaixam mais no século XXI. Fica mais claro a cada dia que passa a possibilidade de ocorrer situações tais que motivem conflitos entre Estados, ou mesmo justifiquem pressão internacional, de preferência pacífica, estimulando e apoiando o certo e impondo sanções ao errado, definida em foro legitimado (organismos internacionais). As questões ambientais e de recursos naturais já fazem parte das agendas estratégicas dos Estados de maior projeção global. Resta saber se o nosso País esteja percebendo sinais destes fenômenos em diversas regiões do globo, especialmente aqui ao lado, no nosso próprio continente sul-americano, para empreender ações proativas, no campo dos estudos estratégicos, em defesa aos interesses brasileiros imediatos e a longo prazo.
Fontes das imagens: Geoatlas: fig. 01; O Estado de São Paulo: fig. 02, 03, 03a, 03b, 04 e 05;
O Globo: fig. 02a; Jornal do Commércio: fig. 06.
em 23 de janeiro de 2008
por Roberto Carvalho de Medeiros
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