Os faxineiros da imagem

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Na última coluna deste ano, chamo a atenção para o filme Conduta de Risco (EUA, 2007), recheado de dilemas éticos e profissionais, certamente pertinentes ao dia-a-dia de advogados e comunicadores, metidos em grandes confusões corporativas da atualidade.

Entreveros que quase sempre estão ligados ao meio ambiente e aos aspectos sociais, comportamentais e econômicos da vida moderna, que são os eixos simbólicos mais importantes da grande bandeira corporativa de nossos dias, a sustentabilidade.

As empresas e instituições geralmente entram em conflitos com a sociedade quando de alguma forma agem de forma incompetente, ilegal ou ilegítima em relação à economia, ao meio ambiente e social. E isto acaba virando movimentação social, manchete, literatura e filme em que elas são apresentadas como grandes vilãs. E nem sempre a reação da sociedade ou de grupos contra as empresas é puro maniqueísmo, a luta do bem contra o mal.

O roteirista e diretor do filme Tony Gilroy, quando fazia as pesquisas para escrever o roteiro de um outro trabalho seu, o Advogado do Diabo, esbarrou no caso de uma montadora de carros que preferiu pagar os seguros produzidos pelas mortes de seus consumidores a fazer o recall dos componentes que ocasionavam os acidentes. A informação inspirou Conduta de Risco.

Para os que têm tempo de ler, recomendo o clássico da literatura administrativa Imagens da Organização, de Gareth Morgan, que relata outros exemplos de má conduta corporativa.

No filme de Gilroy, um advogado Michael Clayton, protagonizado por George Clooney, em meio aos seus problemas pessoais e profissionais, que não são pequenos e transformam o seu dia no pior de sua vida, tem como missão encontrar e tratar de seu amigo e colega de trabalho Arthur Edens (Tom Wilkinson), que enlouqueceu coordenando a defesa da empresa agriquímica U/North, em um processo no qual esta enfrenta uma comunidade de produtores rurais contaminada por seus produtos.

Michael Clayton e os comunicadores, que aparecem no filme treinando executivos da empresa química para reuniões com jornalistas e acionistas, se autodenominam "faxineiros". Aqueles que limpam ou minimizam as sujeiras corporativas. Os midiatrainings no filme são as vassouras dos faxineiros.

Nestes dias de Natal e parada geral, o filme é um excelente estímulo para uma meditação sobre o papel do comunicador organizacional em um mundo que a ação da empresa e de governos mexe profundamente com a vida de cada um de nós. A memória social deste ano registra os grandes casos de crises corporativas, em que os comunicadores e advogados são grandes protagonistas, ainda que as suas atuações sejam nos bastidores.

Entre eles, o acidente do Airbus A320 da TAM, em São Paulo, que infelizmente deixou 199 mortos; o aquecimento global, uma discussão iniciada na Rio-92 e terminada neste ano em Bali (Indonésia), com a aceitação dos representantes norte-americanos da relação entre aquecimento global e corte na emissão de gases; a bolha hipotecária norte-americana corrosiva para a credibilidade de grandes bancos globais; o mega recall dos brinquedos fabricados na China, que terminou com o suicídio do diretor da unidade chinesa do grupo Mattel; o apagão aéreo brasileiro que derrubou autoridades e executivos do setor; a crise do gás boliviano; os questionamentos sobre a segurança pública provocadas pela realidade e pelo filme Tropa de Elite; além das situações da saúde e da educação brasileiras.

Com certeza, muitas questões foram esquecidas nesta lista apressada, no entanto, ela e o filme servirão de motivo para refletirmos sobre a atuação e os dilemas éticos dos comunicadores que trabalham nas empresas e instituições.

em 22 de dezembro de 2007
por Paulo Nassar, do Terra Magazine
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