Reflexões sobre as ambições marítimas da China na atualidade (parte 1 de 3)
Os longos séculos com ciclos sistêmicos de acumulação de riquezas, concebido Braudel e consolidado por Giovanni Arrighi em 1994, destaca Gênova como um marco de liderança comercial, um verdadeiro centro de distribuição de mercadorias para a Europa e Ásia até o século XV. Poucas décadas antes, ocorreu um deslocamento desse centro para a Holanda, transformando Amsterdã em um novo berço de acumulação de riquezas do velho mundo até surgir, mais uma vez, um novo e imponente pólo de comércio, agora agregado por uma evolução de tecnologia que aumenta a produtividade em números exponenciais. É a Inglaterra com sua revolução industrial, acompanhada pela dependência quase que global de suas colônias e países vizinhos dos produtos industriais e manufaturados por suas agressivas empresas nacionais. Após a Segunda Guerra Mundial, o Reino Unido passa o “bastão de liderança” política-econômica, que se encontrava em suas mãos desde o final do século XIX, para um novo ator global agora fora da Europa: os Estados Unidos da América. Após esse rápido passeio pela recente história da acumulação de riquezas construídas pelos Estados soberanos acima mencionados, é possível identificar uma parcela significativa dos fatores que mais contribuiram para a consolidação de suas posições de destaque no cenário internacional. Destacam-se aquelas fundamentais para a formação de uma Política Marítima consistente, garantindo o uso das linhas marítimas envolvidas nas importantes trocas comerciais internacionais. Nesse sentido, as atividades desempenhadas pelos portos, marinha mercante e indústria naval, além do valor reconhecido da mão de obra qualificada, foram imprescindíveis para consolidar uma mentalidade marítima legítima, presente nesses quatro pólos acima exemplificados. Estudiosos avaliam como prováveis sucessores dos EUA a médio prazo dois grandes atores da atualidade: a União Européia e a China. Este artigo enfoca as atuais ambições estratégicas da China em relação ao mar, fator comum dentre os antigos e atuais Estados que obtiveram maior resultado na acumulação de riquezas e de poder estudados até então. Olivier Zajec, professor da Companhia Européia de Inteligência Estratégica, fez um estudo comparativo da China há mais de 400 anos atrás com a China dita moderna para confirmar o desejo como projeto de Estado de expandir o poderio da Marinha do Exército de Libertação (M-EPL), visando a contribuir para influir no mundo e não mais nas proximidades do Mar da China. Para sua consecução, inclui no texto do plano de alta tecnologia marítima, duas expressões de alcances significativos, quais sejam, a influência harmoniosa e pacífica nas relações internacionais

Em 2007, navios de guerra chineses realizaram visitas oficiais a portos europeus (França e Espanha), asiáticos (Rússia, Cingapura e Japão), da Oceania (Austrália) e da América (EUA). Um fato novo e bem significativo foi a M-EPL ter também participado de manobras conjuntas internacionais com outras marinhas contra atos de pirataria marítima, que está crescendo nos últimos anos em determinados pontos focais. Destacam-se a costa da Somália e a região próxima do Estreito de Málaca, no Índico oriental e ocidental, respectivamente, e os mares da China, de Java e das Filipinas, no Pacífico ocidental. Cresce o desejo chinês em manter livre o acesso aos vastos espaços oceânicos do Pacífico e aos corredores marítimos ao sudeste da península da Indochina. Ao mesmo tempo, eleva a necessidade estratégica de manter protegidas as linhas marítimas de abastecimento de petróleo oriundas, principalmente, do Oriente Médio. Vale lembrar que, apesar da atual crise financeira global, a China se mantém em destaque no crescimento de PIB, sendo o segundo maior importador de petróleo mundial, somente ficando após os EUA. “A extensão da costa chinesa, com cerca de 14.500 km, constitui áreas de crises potenciais e de fricções”, afirma Loïc Frouart, do Ministério da Defesa da França.
Desde 2000 a China prepara seu Plano Estratégico de Defesa com vistas a obter capacidade dissuasória para reivindicar, por etapas de consolidação, o domínio pleno sobre a parcela oriental do Oceano Pacífico. A primeira é o total controle das áreas marítimas em torno do Mar da China, em cerca de quatro milhões de quilômetros quadrados. Somente após sua consecução, a China empreenderá uma projeção de poder sobre o Pacífico próximo (à leste da Oceania), evitando interferência mútua nas áreas de influência e de interesse dos EUA, Reino Unido e França. Pretende estabelecer e consolidar bases políticas e estratégicas nessa região para, finalmente, expandir para oeste em direção a Pearl Harbor, região que abrange uma área marítima de interesse permanente dos EUA. Um desafio para os próximos dez a quinze anos de alta complexidade, haja vista esse espaço marítimo do Pacífico praticamente encontrar-se em pleno controle estratégico dos norte-americanos, tanto no ar como sobre a sob aquela massa líquida. O próximo artigo dará continuidade a presente análise, concluindo os aspectos relacionados com os espaços marítimos do Pacífico, vitais para o fluxo comercial chinês junto ao mercado do hemisfério americano. Também serão analisadas outras áreas marítimas contidas no Oceano Índico, onde se situam as linhas de comunicações marítimas originárias do Golfo Pérsico e de Suez, de alto valor estratégico para a China.Desde 2000 a China prepara seu Plano Estratégico de Defesa com vistas a obter capacidade dissuasória para reivindicar, por etapas de consolidação, o domínio pleno sobre a parcela oriental do Oceano Pacífico. A primeira é o total controle das áreas marítimas em torno do Mar da China, em cerca de quatro milhões de quilômetros quadrados. Somente após sua consecução, a China empreenderá uma projeção de poder sobre o Pacífico próximo (à leste da Oceania), evitando interferência mútua nas áreas de influência e de interesse dos EUA, Reino Unido e França. Pretende estabelecer e consolidar bases políticas e estratégicas nessa região para, finalmente, expandir para oeste em direção a Pearl Harbor, região que abrange uma área marítima de interesse permanente dos EUA. Um desafio para os próximos dez a quinze anos de alta complexidade, haja vista esse espaço marítimo do Pacífico praticamente encontrar-se em pleno controle estratégico dos norte-americanos, tanto no ar como sobre a sob aquela massa líquida. O próximo artigo dará continuidade a presente análise, concluindo os aspectos relacionados com os espaços marítimos do Pacífico, vitais para o fluxo comercial chinês junto ao mercado do hemisfério americano. Também serão analisadas outras áreas marítimas contidas no Oceano Índico, onde se situam as linhas de comunicações marítimas originárias do Golfo Pérsico e de Suez, de alto valor estratégico para a China.

Fonte: Geo Atlas 2007
em 30 de novembro de 2008
por Roberto Medeiros
Sobre o autor
Imprima esse texto
versao em pdf
topo
voltar